Por Guilherme Kalel
07/11/2026
A confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 25 de outubro de 2026 consolidou um cenário de apreensão para quem esperava responsabilidade fiscal, segurança jurídica e modernização do Estado brasileiro. No entanto, em política, o fundo do poço raramente é o limite. O verdadeiro teste de sobrevivência institucional do país não terminou nas urnas de outubro; ele será decidido em fevereiro de 2027, com a posse do novo Congresso Nacional e a escolha das mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Diante de um Poder Executivo que já demonstrou sua disposição em expandir gastos públicos e ampliar a presença estatal, a única linha de defesa capaz de conter os excessos do Planalto seria um Legislativo independente, combativo e comprometido com o equilíbrio entre os Poderes. É exatamente por isso que a articulação para manter Davi Alcolumbre (União-AP) no comando do Senado e Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara representa a receita complementar para o desastre.
A permanência dessa dupla não significa estabilidade; significa a institucionalização de um consórcio de poder baseado no fisiologismo, na troca de favores orçamentários e na blindagem mútua. Quando o Parlamento abre mão do seu papel fiscalizador para se tornar sócio minoritário do Executivo, quem paga a conta é a sociedade.
O desenho constitucional brasileiro exige que o Congresso atue como contraponto natural ao Presidente da República. A Câmara e o Senado existem para debater, frear e corrigir os rumos do governo federal, e não para funcionar como meros cartórios de homologação das vontades do Planalto. Contudo, a manutenção das atuais presidências nas duas Casas aponta para a consolidação de um pacto de conveniência que esvazia a oposição e neutraliza a fiscalização.
No caso da Câmara dos Deputados, a costura política para reconduzir Hugo Motta ao cargo já reúne uma frente ampla que vai do PT de Lula a siglas tradicionais do Centrão, como União Brasil, PP, MDB e PSD. Essa aliança heterogênea não se forma em torno de um projeto de país, mas sim da preservação de espaços de poder, controle de comissões e distribuição de emendas parlamentares. Um presidente da Câmara eleito com a bênção simultânea do governo e do bloco fisiológico jamais terá autonomia — ou interesse — para barrar pautas que aumentem a carga tributária ou engordem a máquina pública.
Se na Câmara o risco é a transformação do plenário em um balcão de governabilidade cara e ineficiente, no Senado Federal o problema é ainda mais grave. Cabe aos senadores a prerrogativa exclusiva de sabatinar autoridades, julgar ministros do Supremo Tribunal Federal e zelar pelo pacto federativo. Sob a liderança de Davi Alcolumbre, que já articula abertamente sua reeleição para 2027 aproximando-se tanto do Planalto quanto de ministros do STF, o Senado corre o risco de perpetuar sua posição de submissão.
A estratégia de tentar agradar a todos os lados — acenando ao governo, mantendo diálogo estreito com a Suprema Corte e fazendo gestos pontuais à oposição — revela um modelo de presidência focado apenas na autopreservação política. Quando a pauta do Senado é gerida como moeda de troca, temas urgentes como o controle do ativismo judicial, a transparência nas contas públicas e a revisão de abusos institucionais são sistematicamente engavetados. O resultado é um Senado omisso, incapaz de exercer seu papel de Casa revisora e guardiã do equilíbrio entre os Três Poderes.
A combinação de um Executivo reeleito com um Congresso comandado pelas mesmas lideranças de sempre trará efeitos concretos e imediatos a partir de 2027.
Descontrole fiscal e mais impostos: Sem um Legislativo disposto a impor limites ao apetite arrecadatório do governo, o caminho mais fácil continuará sendo a criação ou o aumento de tributos para sustentar uma máquina estatal ineficiente. O setor produtivo, já sufocado, perderá ainda mais competitividade.
Paralisia das reformas estruturais: Reformas administrativas profundas, revisão de privilégios e medidas reais de desburocratização exigem coragem política e enfrentamento de corporações. Um Congresso acomodado no loteamento de cargos e verbas não tem incentivo algum para comprar essas brigas.
Insegurança jurídica crônica: A ausência de um Senado firme permite que o desequilíbrio entre os Poderes se aprofunde, afastando investimentos privados, encarecendo o crédito e mantendo o país refém de decisões monocráticas e imprevisíveis.
Erosão da representatividade: O eleitor que foi às urnas em 2026 buscando renovação ou freios ao governo federal verá seu voto traído por acordos de cúpula fechados nos bastidores de Brasília, antes mesmo da posse oficial em fevereiro de 2027.
O Brasil não pode se dar ao luxo de atravessar mais 4 anos sob a tutela de um pacto que privilegia a sobrevivência de caciques políticos em detrimento do interesse nacional. A reeleição de Lula já impõe desafios severos à economia e às liberdades individuais; entregar as chaves da Câmara e do Senado a Hugo Motta e Davi Alcolumbre é desligar o último alarme de incêndio da República.
Para evitar que o próximo mandato presidencial se transforme em um ciclo irremediável de estagnação econômica e retrocesso institucional, é imperativo que os parlamentares eleitos em 2026 rejeitem o continuísmo em fevereiro de 2027. O país precisa de presidentes na Câmara e no Senado que tenham estatura para dizer “não” ao Palácio do Planalto, coragem para enfrentar o fisiologismo e compromisso real com a Constituição. Sem essa renovação no comando do Legislativo, o desastre anunciado não será apenas uma possibilidade — será uma certeza matemática.
*Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Publisher da Agencia Kalelpress e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.
